O retrato da liderança hoje
A liderança no Brasil está passando por uma transformação silenciosa, movida por dados concretos e por uma pressão crescente: ou as empresas formam líderes preparadas para o futuro, ou vão perder talentos, competitividade e relevância nos próximos anos. Em um cenário de engajamento baixo, novas dinâmicas de trabalho e demandas por diversidade, a figura do líder deixa de ser apenas quem “cobra resultados” e passa a ser o principal motor de cultura, inovação e saúde organizacional.

O retrato da liderança hoje no Brasil
Os dados mostram que o Brasil vive um momento de transição importante na forma como ocupa e avalia posições de liderança. Ao mesmo tempo em que há avanços em diversidade, os indicadores de engajamento e bem-estar acendem alertas claros para as empresas.
- As mulheres já ocupam 38% das cargas de liderança nas grandes empresas brasileiras pesquisadas pela FIA Business School em 2023, mantendo o índice do ano anterior, o que indica avanço, mas ainda distante da paridade plena.
- Quando se olha para diretoria e C-Level, a participação feminina cai para 28%, mostrando que a alta liderança ainda é predominantemente masculina.
- Dados do IBGE apontam que os homens ocupam cerca de seis em cada dez cargas gerenciais no país, reforçando a permanência de desigualdades estruturais.
Ao mesmo tempo, uma agenda de diversidade começa a se traduzir em casos concretos de transformação. Empresas como a Natura, por exemplo, atingiram paridade de gênero em cargos de liderança na América Latina em 2023, com 50,5% de mulheres em cargos de diretoria e vice-presidência, e 75% de liderança feminina em Pesquisa & Desenvolvimento, resultado de políticas estruturadas de valorização da diversidade.
Engajamento em queda: o custo de uma liderança fracassada
Se há um dado que nenhuma empresa brasileira pode ignorar hoje é o nível de engajamento das pessoas. Quando o olhar se aprofunda, fica evidente que liderança e engajamento caminham lado a lado — para o bem ou para o mal.
- No Brasil, apenas 28% dos colaboradores se envolvem engajados, enquanto 68% se dizem desmotivados, segundo levantamento com base em dados da Gallup; esse quadro impacta diretamente bem-estar, produtividade e retenção.
- Outro estudo mostra que 31% das pessoas estão engajadas, enquanto uma parcela relevante se declara em progresso, revelando uma base de profissionais que não apenas não contribui, mas muitas vezes sabota resultados.
- Em 2024, o engajamento global caiu de 23% para 21%, e a perda estimada para a economia mundial chega a 438 bilhões de dólares em produtividade, evidenciando o peso financeiro da falta de conexão entre pessoas e trabalho.
Entre os gestores, o cenário é ainda mais sensível. A queda no engajamento de quem lidera foi mais acentuada do que entre colaboradores individuais, mostrando que os líderes estão exaustos, pressionados e, muitas vezes, sem preparação para lidar com as novas demandas de suas equipes. Empresas que colocaram treinamento e desenvolvimento de gestores no centro da estratégia de estratégia aumentaram o engajamento dos líderes de 20% para 28%, comprovando que investir em liderança gera resultados mensuráveis.
As novas dinâmicas de trabalho e a liderança do futuro
A forma de trabalhar mudou — e a liderança precisa acompanhar esse movimento. Trabalho híbrido, vezes distribuído, mais tecnologia e mais diversidade criam um contexto em que o antigo modelo de comando e controle perde espaço rapidamente.
Algumas tendências já se consolidam como essenciais para o líder do futuro no Brasil:
- Empatia e inteligência emocional : líderes são cada vez mais cobrados para compreender desafios individuais, oferecer apoio e criar ambientes de confiança, especialmente em contextos híbridos e remotos.
- Gestão baseada em dados e IA : relatórios apontam que o futuro da liderança será moldado pela combinação entre talento humano e uso inteligente de inteligência artificial, tanto na tomada de decisão quanto no desenvolvimento das pessoas.
- Estruturas menos hierárquicas : modelos de liderança mais colaborativos e compartilhados ganham espaço, substituindo hierarquias por tempos independentes, com decisões mais distribuídas.
- Gestão do bem-estar e da cultura : em pesquisa com líderes empresariais, 94% associam diretamente o bem-estar das equipes a motivação, motivação e produtividade, reforçando o papel do líder como guarda da cultura organizacional.
A liderança que se destaca passa a ser aquela capaz de traduzir dados em decisões humanas, promover culturas inclusivas, sustentar conversas importantes e, ao mesmo tempo, acelerar a inovação. Não se trata apenas de gerenciar tarefas, mas de criar contextos em que as pessoas queiram ficar, crescer e contribuir mais.
Indicadores de futuro nas empresas brasileiras
Quando se observam as pesquisas de tendências de liderança e futuro do trabalho para 2026, alguns indicadores se repetem como os norteadores do que serão esperados pelos líderes no Brasil. A combinação de tecnologia, pressão por propósito e novos modelos de carreira está redesenhando o mapa da gestão.
Entre os principais sinais de futuro, destacam-se:
- Liderança mais estratégica : relatórios recentes indicam que a liderança terá papel ainda mais central na capacitação das pessoas e na construção de ambientes de aprendizado contínuo, especialmente em empresas que apostam em educação corporativa e inovação.
- Equipes mais diversas e inclusivas : a agenda de diversidade, equidade e inclusão se torna competitiva, com metas claras de representatividade, como as da Natura, e maior pressão social e regulatória sobre o tema.
- Automação e Inteligência Artificial : as tendências apontam para líderes que saibam integrar IA aos processos, sem perder a dimensão humana das decisões, equilibrando eficiência e empatia.
- Modelos de trabalho híbridos e distribuídos : o futuro do trabalho no Brasil tende a manter formatos flexíveis, exigindo líderes com habilidades de empatia digital, comunicação clara e domínio de colaborativas.
- Culturas psicológicas e eticamente seguras : com o aumento de estresse e desengajamento, crescem a cobrança por ambientes psicológicos e eticamente mais seguros, nos quais o erro é tratado como aprendizado e não como proteção.
Esses indicadores mostram que a liderança deixa de ser apenas uma “função” para se tornar um verdadeiro diferencial competitivo, que separa empresas que prosperam naquelas que apenas sobreviveram. Em mercados voláteis, quem teve líderes preparados para lidar com ambiguidade, pessoas e dados, simultaneamente, tendem a ocupar espaço privilegiado.
Como as empresas podem se preparar
Diante desse cenário, a pergunta central deixa de ser “se” a liderança precisa mudar e passar a ser “como” acelerar essa mudança nas organizações brasileiras. A boa notícia é que os dados também apontam caminhos concretos para quem deseja agir com intencionalidade.
Algumas ações estratégicas se mostram estratégicas:
- Investir em programas estruturados de desenvolvimento de líderes, com foco em competências humanas (empatia, escuta, feedback, gestão de conflitos), digitais (IA, dados, ferramentas colaborativas) e estratégicas (visão de negócio, inovação, sustentabilidade).
- Integrar indicadores de engajamento, bem-estar e clima à agenda de liderança, com metas monitoradas e intervenções claras quando os resultados caem, aproveitando evidências de que empresas que priorizam o desenvolvimento de gestores melhoram engajamento.
- Estabelecer políticas objetivas de diversidade na liderança, com metas, indicadores de acompanhamento e práticas de seleção, promoção e sucessão que reduzam vidas e garantam mais equidade.
- Criar ambientes de autonomia responsável, com menos microgestão e mais confiança, alinhados às tendências de liderança mais colaborativa e menos hierárquica.
- Cuidar ativamente do bem-estar de líderes e lideranças, apoiando o impacto direto da saúde emocional nas métricas de motivação, engajamento e produtividade.
O futuro da liderança nas empresas brasileiras não será definido por discursos inspiradores, mas pela capacidade de transformar dados em decisões, tendências em competências e indicadores em mudança real de comportamento. Em um país reconhecido pelo otimismo — 85% dos brasileiros acreditaram que 2023 seria melhor que 2022, segundo levantamento global —, há espaço para construir um novo capítulo em que líderes sejam protagonistas de organizações mais humanas, inovadoras e sustentáveis.
Tuanny Postal – Professora de pós graduação em liderança e treinadora de líderes.